diluindo a confusão no ondular

Tejo, crepúsculo

No alto dum pinhal.
Tejo entrega-se, Atlântico.
Crepúsculo azul profundo, laranja.
Brisa de fim de tarde, aroma a pinhal.
Lamentos de pássaros, despedem-se do dia.
Sons distantes, pinhas chocalham, o mundo...

O pensamento dilui-se no ondular.
Algo se agita, um eco, um alcançar.
Luz, barco de pesca.
Memórias despertam, caras, lugares, dança irrequieta.
Desvanecem, uma ausência...

Um silêncio gentil sussurra.
Viagem sem nome, o seu fim.
Noite aproxima-se, uma presença.
Já aqui está, sempre esteve...

A ternura de um adeus.
Aos que amei, momentos felizes, tristes, esquecidos.
O deixar-me ir...

O olhar turva-se num sangrar.
Acolho-a, abraço-a, deixo que me abra...

A primeira estrela...

L'infinito

Sempre me foi cara esta erma colina
e esta sebe, que por toda a parte
do último horizonte o olhar exclui.
Mas sentando e admirando, intermináveis
espaços para lá dela e sobre-humanos
silêncios, e profundíssima quietude
eu no pensamento me finjo; onde por pouco
o coração não me amedronta. E como o vento
ouço sussurrar entre estas plantas, eu aquele
infinito silêncio a essa voz
vou comparando: e me sobrevém o eterno
e as mortas estações e a presente
e viva, e o som dela. Assim entre esta
imensidão se afoga o pensamento meu;
e o naufragar é-me doce nesse mar.


Giacomo Leopardi

Tudo está perdoado

Tudo está já perdoado, mas ainda não o sabemos. Precisamos de continuar este jogo na ignorância até o saber. E no final somos nós que nos julgamos não é o Amor. 

Tudo está perdoado. E não é justo para o sofrer.

O justo e o injusto são apenas a nossa ignorância do que É. 



A Fonte

“A Ásia, a Europa são meros recantos do universo. Todo o oceano é uma gota no universo: O monte Athos uma pá de terra no universo. Todo o tempo presente é a ponta de um alfinete na eternidade. Todas as coisas são minúsculas, rapidamente alteradas, evanescentes.
Todas as coisas vêm daquele outro mundo, partindo daquela razão governante universal, ou em conseqüência dela. Assim, mesmo as mandíbulas de um leão, venenos, todo o tipo de maldades são, como espinhos ou pântanos, produtos consequentes daquilo que é nobre e amável.
Portanto, não os considere alheios ao que você adora, mas reflita sobre a fonte de todas as coisas ”.
Marcus Aurelius
Meditações, Livro Seis, 36

Riqueza

A meu ver existem 4 tipos diferentes de riqueza:

- material
- conduta
- amor
- compreensão

Todas estão dependentes umas das outras. Dependendo dos objetivos de cada individuo, das inclinações, do contexto e condicionamento social e familiar, alguns indivíduos vão sobressair e investir mais numa destas riquezas do que em outras, enquanto que outros vão procurar um equilíbrio.

A conduta pessoal de cada um refere-se à disciplina individual, ao código de comportamento, conceção de honra, ética. A capacidade de nos observarmos: o nosso comportamento, pensamentos, actos. A determinação e crença de que podemos evoluir em direção ao nosso potencial humano. Alimentando mais o lado em nós que tenciona o melhor para si e para a Vida. É força e vitalidade mental.

Riqueza material obviamente está relacionada com posses materiais, dinheiro, conforto. É algo que confere ao indivíduo algum poder sobre a sua realidade, liberdade de movimento, tempo e espaço. É importante ter uma base material suficiente para as nossas necessidades para podermos desenvolver as restantes riquezas.

No amor temos as nossas relações intimas amorosas, familiares, amizade, a relação que mantemos com nós próprios, a capacidade de empatia com outros seres humanos e com outros seres vivos. Incluo também aqui a capacidade de criar digamos uma empatia com a Natureza, com o Universo e com o Sagrado. Desta empatia nasce compreensão, e da compreensão nasce o Amor.

Com compreensão refiro-me a um tipo de conhecimento que não vem da nossa aprendizagem na escola, de ler livros, de ouvir algo da boca de outras pessoas. Isso é apenas assimilação de informação. O verdadeiro conhecimento vem da compreensão. Realmente conhecer algo envolve compreender e compreender envolver experienciar.
Quando realmente aprendemos algo por nós mesmo e se dá uma forte compreensão interior, esse conhecimento já não depende de acreditar, pois acreditar é o que nos é exigido quando em crianças e mais tarde como adultos na sociedade, que acreditemos no que nos é dito. Quando compreendemos por nós mesmos já não acreditamos, mas sim passamos a saber e a compreender. E é um conhecimento inabalável pois torna-se parte de nós. Isto requer desaprender, experienciar, pensamento, questionar, arriscar.

De forma a podermos atingir contentamento nas nossas vidas é necessário procurar um equilíbrio entre estas várias áreas pois uma vai apoiar a outra. Procurar apenas a acumulação de um tipo de riqueza como a riqueza material por exemplo, vai-nos deixar vulneráveis nas outras áreas e logo será difícil atingirmos o nosso potencial ou um nível de satisfação e realização que o nosso Ser deseja atingir.

Valor

A felicidade é medida pelo inconsciente através da experiência e presença de Amor, amizade, humor, gratidão, esperança e Verdade.

Estes elementos são cultivados e pagos com sacrifício, lealdade, resiliência, coragem e honra.

Este é o verdadeiro valor das nossas vidas e segue connosco na próxima viagem.

O resto fica.

Evolução

"Não é o mais forte que sobrevive,
nem o mais inteligente
mas o que melhor se adapta à Mudança"


A partir do momento em que a humanidade iniciou um processo de distanciamento da selecção natural, uma pequena parte, os mais privilegiados, fortes e inteligentes, passaram a procurar além de uma mera sobrevivência, para passarem também a moldar o seu meio-ambiente. Surge então o sedentarismo, passamos a armazenar alimentos, construir habitações, distribuir tarefas, dividir, organizar, surge a autoridade: os mais fortes, inteligentes e privilegiados. Esta minoria passa a ditar as normas, a moldar a nossa linguagem, forma de pensar, a nossa consciência. O resultado deste processo podemos vê-lo todos os dias nas nossas vidas.

Para podermos reconquistar um pouco da nossa integridade colectiva, uma redenção da alma humana, precisamos de uma capacidade individual e coletiva de recondicionamento, reconstrução, de desaprender o que foi aprendido. E para isto, a meu ver, precisamos de ser tão ou mais fortes e inteligentes que a minoria que nos colocou na situação em que estamos. Precisamos da capacidade de sermos vulneráveis e verdadeiros com nós mesmos e uns com os outros e de uma resiliência que nos permita navegar o desconforto e dor que advém de escolhermos este caminho. 

Mudança vem, para mal ou pior. Precisamos muito mais do que uma adaptação a uma mudança futura que a meu ver parece ser bastante sinistra e que seria não uma escolha nossa mas uma imposição. Precisamos de reconquistar a capacidade de causarmos nós a mudança para um processo que nos leve a um futuro sustentável e em equilíbrio com a nossa condição.

Igualmente importante: precisamos de sabedoria e clareza para distinguir entre o que deve ser mudado e o que não pode mudar, individualmente e colectivamente. Aqui entra a adaptação, aceitação. Apenas a minha perspectiva.

Um caminho

"Se descobrires na vida humana algo melhor do que justiça, verdade, auto-controlo, coragem - em suma, algo melhor do que a auto-suficiência da tua própria mente que te impele a agir de acordo com a verdadeira razão e aceita a herança do destino em toda a parte exterior ao seu controlo: se, como eu digo, conseguires ver algo melhor do que isto, então entrega-te a esse bem que encontraste com todo o teu coração e desfruta dele. 
Mas se nada se mostrar melhor do que o próprio deus que vive em ti, e que trouxe os teus impulsos sob o seu controlo, que examina os teus pensamentos, que se tenha retirado em si, como Sócrates costumava dizer, de todos os incentivos dos sentidos, que se subordinou aos deuses e cuida do homem - se tudo em comparação com isto te parecer pequeno e insignificante, então não dês nenhum espaço para qualquer outra coisa: uma vez virado e inclinado a qualquer outra alternativa, vais posteriormente lutar para restaurar a primazia desse bem que é teu e apenas teu. 
Não é correcto que [este bem] deva ser rivalizado por qualquer coisa de uma ordem diferente, como por exemplo, elogios, poder, riqueza, prazer. Todas estas coisas podem parecer adequadas por algum tempo, mas de súbito poderão assumir o controle e [prender-te]. Então repito: deves simplesmente e livremente escolher o melhor e manteres-te [nesse caminho]. 'Mas o melhor é o que traz benefício'. Se para o teu benefício como um ser racional, adopta-a; mas, se simplesmente para o teu benefício como um animal, rejeita-a (...)."
Marcus Aurelios - Meditações: livro três, 6

O Obstáculo é o Caminho

Simplificando e indo à raiz das coisas podemos compreender o que antes nos parecia confuso.

O cérebro humano é, segundo o que sabemos, a estrutura mais complexa no nosso Universo conhecido. Logo o comportamento humano é igualmente dos mais complexos padrões existentes.

Somos especialistas em complexidade e paradoxos.

Vulnerabilidade

Tenho necessidades como afecto, expressão, empatia, intimidade, humor. Estas necessidades não são cumpridas até um ponto de satisfação. Os mecanismos que uso para as satisfazer são disfuncionais e fogem do padrão "normal" da sociedade.

Oração

Serenidade para aceitar o que não pode ser mudado,
Coragem para mudar o que pode ser mudado,
Clareza para distinguir entre os dois

Viver um momento de cada vez,
Encarar as dificuldades como um caminho para a paz,
Receber o mundo tal como é,
e não como eu o quero
Ser razoavelmente feliz nesta vida
E dela partir sereno e sem remorso


original:
Oração da Serenidade 

Inocência que brilha

Que escuridão é esta que engole a nossa inocência?
De onde vem esta ignorância que a ofusca?
Que sustento pode saciar esta fome que a mastiga?

Há uma inocência que brilha
em cada alma nascida
para ser torturada e esculpida
por mãos que não amam
numa ausência cruel que sufoca a Vida

Desejas sorrir para o acordar?
Preencher o teu intimo com essa Luz invisivel?
Partir deste sonho sem medo e mentira?

Preserva essa inocência que brilha
em cada alma nascida
Rega Amor nessa inocência que chora
em cada alma distorcida
E ressuscita essa inocência perdida
na tua alma escondida

Coração diamante

Numa terra indiferente
engolido por uma ausência
chega um eco distante
reflexo de uma demência

Um céu sem cor chora 
sobre uma terra fecunda
numa brisa suave e doce
viaja um aroma que sonha
memórias da tua pele...

Cabelos que chovem
um pensamento brilhante
olhos que iluminam
um sorriso cintilante
alma pura
num Coração diamante

Preciso de saber
conheceste o meu amor
quando fui teu amante?
sê feliz e perdoa-me 
por não ter sido mais galante

Quero que saibas
que finalmente faz sentido
se não procurar
basta viver!
basta morrer!
assim posso Amar

É uma morte
que arde no peito
sufoca o suspiro
afoga o olhar
confunde o espírito


finalmente posso Amar

Dancemos

A vida quotidiana é uma como uma dança de palavras, pensamentos, sentimentos e percepções. Todos os dias pensamos e falamos sobre passado e futuro, e durante esse processamento de informação surgem as contradições, os erros, problemas, bloqueios, que condicionam o Ser Humano. Surge a frustração, raiva, medo, ansiedade, insatisfação. A nossa mente raramente está calma, sempre possuída por esta corrente turbulenta mental, sempre a fugir do que é real, palpável e vivo, o aqui e agora, o momento presente. O nosso verdadeiro lar, a base do Ser Vivo encontra-se no presente. Nunca estivemos no passado nem no futuro, sempre estivemos vivos no presente, sem presente não há vida. É a impertinência do presente, a sua transformação, a sua relação com o tempo, e o acumular destas transformações em forma de informação nas nossas memórias, que criam ideias de passado. As nossas projecções, o nosso medo, obrigam-nos a imaginar, antecipar, calcular as próximas transformações do presente, o futuro. O passado já foi, é história. O futuro é imaginado. A nossa persistência em querer viver fora do presente, gera uma ausência. Se a vida só se encontra aqui e agora, viver no ilusório é um tipo de morte, ou sonho, ilusão. Viver no presente não gera arrependimento nem saudade pelo passado, nem ansiedade e desejo pelo futuro. O presente é simplesmente um desafio, uma percepção e conjugação de elementos visuais, auditivos, tácteis, sentimentos, consciências etc. Se conseguirmos focar a nossa atenção nesse momento presente, com uma atitude inteligente e emocionalmente equilibrada, o desafio presente serás sempre compreendido, e a situação resolvida se for um problema, ou aceite se for o que for. Se conseguirmos trazer a mente para este momento onde se encontra a Vida, o aqui e agora, que é possível descobrir e sentir, tocando na pele, respirando, escutando, ouvindo, e mantendo a mente atenta, fresca e serena, assente neste ponto, iremos compreender a experiência humana apenas como uma dança entre o observador e o observado, entre nós e os elementos, uma dança que dançamos momento a momento. Esta dança interage connosco e nós com ela. A ausência de ansiedade, de insatisfação, de medo, desaparecem para dar lugar à paz, calma e alegria quando deixamos de tentar controlar a dança e nos entregamos a ela, de forma sábia, serena, suave, momento a momento, sem antecipar, desejar, sem medo, sem querer repetir danças passadas. Quando trazemos a mente para o presente, quando nos rendemos ao momento e nos rendemos à dança com todo o nosso ser, estamos despertos, estamos vivos, estamos felizes, amamos, compreendemos, Vivemos.

Entrevista a Arno Gruen

Lembra-te

Flutuando por entre linhas do infinitamente possivel, dei por mim a dar por mim, o que não é infinito. Era Tudo e Sou, mas agora não. O Tudo passou a nada, e tomei forma: 1, 2... 1, 2... 1, 2... 3... 4... 5...6... Perdido no inicio do meu próprio fim. Sozinho, confuso, sofrendo, tentei ser Tudo de novo, mas falhei. Ele, Eu decidi. Ao pensar, deixei de Ser. Ao deixar de Ser, passei a ser. Ao ser, caí... A queda da mais elevada subtileza ao mais crude desejo. Morri... fui cuspido do meu Pai, Eu. Caio para o que agora é conhecido como desconhecido, e esqueço-me de mim, para me lembrar de novo, que tenho que me lembrar de me lembrar de me lembrar de me lembrar de me lembrar de me lembrar... que Eu Sou. Cuspido, vomitado, rejeitado, separado de Mim, Criado... e assim desci até mim.

Transcender o mapa

Agrada-me, ou percebo, faz sentido para mim, a ideia de o “estado Natural”. Ou o estado da mente sem o pensamento, livre de camadas, da programação. E não apenas do pensamento, da contextualização. Da mesma forma que olhamos para uma palavra e a lemos, olhamos também à nossa volta e fazemos uma leitura. Onde estou? Estou em França. Estou na casa do André. Que dia é hoje? 28 de Junho. Tenho 29 anos desempregado. Tenho a minha casa no Porto etc. Quando simplesmente pensamos: “Olha um castanheiro, olha um corvo, o Sol está quase a desaparecer. Que cor laranja tão bonita”. Estamos, desde que nos levantamos até adormecermos, a ler o nosso meio ambiente, as pessoas, movimentos etc. Estamos sempre a viver segundo os nossos conceitos, ideias, desejos, pensamentos, da leitura, ou segundo o mapa perceptual e conceptual. Ou seja, a mente nunca se encontra no seu estado natural. Encontra-se sempre fixada no movimento do pensamento, sentimentos etc na Matrix.

Diluir a confusão no ondular

- A qualquer momento podes morrer. Todas as pessoas que amas e que amaste vão desaparecer. Todas as tuas memórias, sonhos e pensamentos vão acabar. O chão que pisas não é sólido. Não há segurança. Não há certezas. Não há controlo. Não tens nada. Não és ninguém. Desiste da tua arrogância. Entrega-te ao perigo e incerteza da vida.

O Muro

«O Infinito 
Sempre me foi cara esta erma colina
e esta sebe, que por toda a parte
do último horizonte o olhar exclui.
Mas sentando e admirando, intermináveis
espaços para lá dela e sobre-humanos
silêncios, e profundíssima quietude
eu no pensamento me finjo; onde por pouco
o coração não me amedronta. E como o vento
ouço sussurrar entre estas plantas, eu aquele
infinito silêncio a essa voz
vou comparando: e me sobrevém o eterno
e as mortas estações e a presente
e viva, e o som dela. Assim entre esta
imensidão se afoga o pensamento meu;
e o naufragar é-me doce nesse mar.»
-- Giacomo Leopardi

Rende-te

Deixa o sono dormir
Deixa o sonho sonhar
Deixa a respiração respirar
Deixa o sentimento sentir
Deixa a dor sofrer
Deixa a vida viver
Deixa a morte morrer
Rende-te